Uma reportagem sobre o Capibaribe é inevitavelmente uma reportagem sobre Recife — e sobre o que uma cidade faz com o que não quer ver.
Há uma fotografia que guardo desde criança. Minha avó, jovem, sentada na beira do Capibaribe, em algum ponto do bairro do Derby, com os pés na água. O rio está limpo na foto — ou pelo menos parece estar, na escala de cinzas da imagem dos anos 1960. Ela me contava que nadava ali quando era menina, que pescavam traíras e piaus, que as lavadeiras estendiam roupa nas pedras da margem.
Quando mostro essa foto para pessoas mais jovens, elas não acreditam que é o mesmo rio que hoje corta Recife como uma ferida mal cicatrizada — escuro, lento, carregado de resíduos que a cidade prefere não ver.
A história de um esquecimento
O Capibaribe não foi sempre assim. A degradação que hoje parece natural — parte da paisagem urbana, aceita com a resignação que se reserva ao inevitável — é o resultado de décadas de escolhas deliberadas ou, mais precisamente, de não-escolhas. De cada vez que uma política de saneamento foi adiada. De cada vez que um assentamento irregular foi tolerado na margem porque era mais fácil do que oferecer alternativas. De cada vez que os esgotos de mais um bairro foram conectados ao rio porque a estação de tratamento não tinha capacidade.
Conversei com Seu Antônio, 78 anos, que mora há cinquenta anos numa casa a cinquenta metros do rio, no bairro de Casa Forte. "Quando me mudei pra cá, o rio tinha cheiro de rio", ele me disse, enquanto olhava pela janela para a água escura. "Hoje tem cheiro de esgoto. A gente se acostuma, mas não é normal."
O que ainda é possível
Não é uma história sem esperança. Projetos de revitalização existem, alguns com resultados concretos em trechos específicos. A consciência ambiental cresceu. Há organizações da sociedade civil que monitoram a qualidade da água e pressionam por ação pública.
Mas a revitalização real do Capibaribe — não apenas a cosmética de algumas margens, mas a recuperação efetiva da qualidade da água ao longo de todo o percurso urbano — exige um compromisso de longo prazo que nenhuma gestão municipal isolada pode assumir. Exige continuidade, investimento e, acima de tudo, a decisão coletiva de que o rio importa.
Minha avó morreu sem ver o Capibaribe limpo de novo. Não sei se eu verei. Mas a fotografia fica — como prova de que já foi diferente, e como lembrete de que poderia ser diferente outra vez.
Diretora editorial
Escritora e jornalista pernambucana. Autora de dois livros de reportagem sobre o Nordeste urbano. Acredita que o jornalismo narrativo é a forma mais honesta de contar histórias verdadeiras.