Dez anos após sua morte, a obra de Ariano Suassuna permanece viva e disputada — mas o que a cidade fez com seu legado?

Ariano Suassuna morreu em julho de 2014, aos 87 anos, deixando uma obra que é simultaneamente uma das mais originais da literatura brasileira e uma das mais difíceis de classificar. O Movimento Armorial, o Auto da Compadecida, o Romance d'A Pedra do Reino — são criações que não se encaixam nos cânones estabelecidos, que desafiam as fronteiras entre erudito e popular, entre regional e universal, entre passado e presente.

Dez anos depois, o que Recife — e o Brasil — fez com esse legado?

A canonização e seus riscos

Há um processo de canonização em curso que, paradoxalmente, pode ser o maior risco para a vitalidade da obra de Suassuna. Quando um artista se torna monumento, sua obra tende a ser reverenciada em vez de lida, celebrada em vez de discutida, preservada em vez de questionada.

O Auto da Compadecida virou peça obrigatória do currículo escolar — o que é, em si, uma conquista. Mas quantos estudantes chegam a ela com a abertura necessária para se surpreender, ou chegam já armados com a expectativa de que se trata de "um clássico" que devem respeitar sem necessariamente entender?

O que a obra ainda tem a dizer

O mais interessante em Suassuna, para quem o lê sem o peso da reverência obrigatória, é a radicalidade de sua aposta. Ele acreditava — e demonstrou com sua obra — que a cultura popular nordestina não era um material bruto a ser refinado pela cultura erudita europeia, mas uma tradição sofisticada com sua própria lógica estética, seus próprios critérios de beleza e verdade.

Essa aposta continua sendo provocativa. Em um país que ainda olha para fora em busca de validação cultural, a insistência de Suassuna na riqueza do que está aqui — nos cordéis, nas xilogravuras, nas festas populares, na música do sertão — é um gesto político tanto quanto estético.

Recife ainda não sabe o que fazer com Ariano Suassuna. Mas talvez esse não-saber seja, afinal, o sinal mais honesto de que a obra ainda está viva.


Eduardo Wanderley
Eduardo Wanderley
Editor de cultura

Crítico cultural e ensaísta. Formado em letras pela UFPE, dedica-se a explorar as intersecções entre literatura, música e memória no Nordeste brasileiro.

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