O frevo é patrimônio imaterial da humanidade, mas sua prática cotidiana enfrenta o desafio de sobreviver além dos dias de festa.

O frevo existe em dois tempos. Há o frevo do carnaval — explosivo, coletivo, irresistível, capaz de transformar qualquer rua do Recife em um palco onde a distinção entre espectador e participante desaparece. E há o frevo do resto do ano — praticado em escolas, associações culturais e grupos de dança que trabalham para que a tradição não se reduza a um evento anual.

Esses dois frevos coexistem em tensão produtiva. O carnaval é o momento de maior visibilidade e de renovação do vínculo afetivo entre a dança e a cidade. Mas é no trabalho cotidiano, longe das câmeras e dos turistas, que o frevo se transmite de uma geração para outra.

As escolas que mantêm a chama

Visitei a Escola de Frevo do Recife, instalada no Pátio de São Pedro, em uma tarde de quarta-feira. A aula era para crianças entre 8 e 12 anos, a maioria de bairros da periferia que chegaram por indicação de professores ou parentes. O professor, Mestre Nascimento, tem 64 anos e aprendeu a dançar frevo com o pai, que aprendeu com o avô.

"Frevo não é só dança", ele me explicou enquanto corrigia a postura de uma menina de 9 anos. "É uma forma de estar no mundo. Você aprende a ocupar espaço, a se equilibrar, a improvisar. Isso serve pra vida toda."

O desafio da transmissão

A transmissão do frevo enfrenta hoje desafios que as gerações anteriores não conheceram. A competição pelo tempo e atenção das crianças é intensa — jogos digitais, redes sociais, atividades extracurriculares de todo tipo. O frevo precisa competir nesse mercado de atenção sem perder o que o torna único: a exigência de presença física, de contato, de improvisação no momento.

Não é uma batalha perdida. As escolas de frevo têm listas de espera. O interesse de jovens e adultos pela dança cresceu nos últimos anos, em parte impulsionado pelo reconhecimento da UNESCO como patrimônio imaterial da humanidade em 2012. Mas o reconhecimento externo não substitui o trabalho interno de transmissão — o que Mestre Nascimento faz toda quarta-feira, com paciência e rigor, em uma sala de aula que cheira a suor e tradição.


Sofia Cavalcanti
Sofia Cavalcanti
Diretora editorial

Escritora e jornalista pernambucana. Autora de dois livros de reportagem sobre o Nordeste urbano. Acredita que o jornalismo narrativo é a forma mais honesta de contar histórias verdadeiras.

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